Gasolina com chumbo, um erro de século que deixou marcas profundas na Terra

Há pouco mais de 100 anos, a indústria automobilística deu um passo que mudaria o planeta — e não de forma positiva

Automonitor
Fevereiro 1, 2026
18:00

Há pouco mais de 100 anos, a indústria automobilística deu um passo que mudaria o planeta — e não de forma positiva. Thomas Midgley, engenheiro da Pensilvânia, procurava uma forma de fazer os motores de combustão funcionarem sem falhas. A sua solução? Adicionar chumbo à gasolina. O resultado imediato: motores mais estáveis. O resultado a longo prazo: envenenamento em massa, declínio da inteligência humana e aumento de crimes, tudo desencadeado por um aditivo que ninguém imaginava que seria tão devastador.

Nos Estados Unidos, a gasolina com chumbo tornou-se comum nas décadas seguintes. A Europa proibiu-a aos poucos a partir dos anos 80, e a Argélia foi o último país a eliminar esse combustível em 2021. Estima-se que esse envenenamento global tenha custado mais de um milhão de vidas prematuras, causado 60 milhões de crimes e reduzido 322 milhões de pontos de QI, com um prejuízo anual equivalente a 4% do PIB mundial.

A invenção que virou desastre

Em 1921, os carros ainda eram rebeldes: motores explodiam irregularmente, gerando o que os mecânicos chamavam de “batida de pino”. O som era irritante, os motores sofriam danos e conduzir era uma verdadeira montanha-russa. Midgley e sua equipa da General Motors descobriram que o chumbo tornava a gasolina mais estável — e assim nasceu a Ethyl Gasoline Company, nome escolhido para evitar a palavra “chumbo”, conhecida desde a Roma Antiga como tóxica.

Midgley, para mostrar confiança, inalava o aditivo em público. O gesto tranquilizou o público, mas ele próprio sofreu envenenamento por chumbo. Apesar disso, a venda da gasolina prosseguiu, impulsionada por lobby e estudos manipulados que afirmavam que o composto era seguro. Durante décadas, o metal acumulou-se no ambiente e no corpo humano.

O mundo sob efeito do chumbo

O químico Clair Cameron Patterson foi o primeiro a notar algo errado: havia chumbo demais na atmosfera, muito além dos níveis naturais. Os seus estudos mostraram que a população tinha em média 600 vezes mais chumbo no sangue do que o recomendado. Nos EUA, só a partir de 1976 a EPA começou a reduzir o teor do metal na gasolina, culminando na proibição total em 1996. Na Europa, a eliminação completa aconteceu em 2001, e os resultados foram rápidos: quedas de 60% a 80% nos níveis de chumbo no sangue da população.

Mas os efeitos desse desastre global ainda reverberam. Estudos estimam 5,5 milhões de mortes prematuras, triliões de dólares em perdas económicas e uma onda de crimes associada ao efeito do chumbo no comportamento humano. Mesmo hoje, toneladas de partículas desse metal ainda permanecem no ar, no solo e nas construções.

O legado sombrio de Midgley

Midgley não parou por aí. Mais tarde, desenvolveu os CFCs para frigoríficos e condicionadores de ar, criando outro desastre ambiental: o buraco na camada de ozono. Ironia do destino, após ficar paralisado por poliomielite, morreu em 1944 ao tentar levantar-se com um sistema de polias que ele próprio havia inventado. Um fim trágico para o homem que, segundo Fred Pearce, da New Scientist, “foi uma catástrofe ambiental concentrada numa só pessoa”.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.